Projeção aponta déficit primário de R$ 54,6 bilhões em 2026, enquanto exclusões de despesas permitem resultado positivo de R$ 12,6 bilhões para fins da meta fiscal, o governo federal deve cumprir a meta fiscal de 2026, mas isso não significa que as contas públicas estejam equilibradas. Projeções dos analistas econômicos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgadas em 28 de outubro, indicam que a dívida pública poderá alcançar 83,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, o resultado primário efetivo projetado permanece negativo, em R$ 54,6 bilhões, equivalente a 0,4% do PIB.

A diferença entre o déficit projetado e o cumprimento da meta está relacionada ao tratamento de determinadas despesas. Segundo reportagem da coluna Capital S/A, do Correio Braziliense, aproximadamente R$ 67,3 bilhões em precatórios e outros gastos não serão contabilizados no cálculo da meta de resultado primário. Com essas exclusões, a projeção passa a indicar superávit de R$ 12,6 bilhões, correspondente a 0,1% do PIB.
Os números evidenciam uma distinção importante para a análise das contas públicas: cumprir uma meta definida pelas regras fiscais não significa necessariamente encerrar o exercício com superávit nas contas consideradas de forma mais abrangente. O resultado depende tanto da arrecadação e das despesas quanto dos critérios legais utilizados para calcular o indicador fiscal.
Índice
Despesas federais devem crescer acima da inflação
De acordo com as projeções da CNI reproduzidas na reportagem, as despesas federais devem aumentar 4,6% em termos reais em 2026. Isso significa crescimento acima da inflação, com contribuição dos benefícios previdenciários, dos gastos com pessoal e das despesas discricionárias, que incluem gastos sujeitos a decisões de execução orçamentária.
A expansão real das despesas é um fator relevante para a trajetória fiscal porque aumenta o volume de recursos que o governo precisa financiar. O impacto sobre a dívida, entretanto, depende também da evolução das receitas, dos juros, do crescimento econômico e de outros componentes das contas públicas.
A CNI avalia que a política fiscal expansionista pode estimular a demanda e contribuir para o crescimento da atividade econômica. Esse efeito é possível porque o aumento dos gastos públicos pode sustentar o consumo e movimentar setores fornecedores do Estado.
O estímulo à demanda, porém, não resolve automaticamente o problema fiscal. Quando o crescimento das despesas não é acompanhado por receitas suficientes ou por uma expansão econômica capaz de melhorar a relação entre dívida e PIB, o governo pode continuar enfrentando dificuldades para estabilizar o endividamento.
O desafio consiste em avaliar não apenas quanto o Estado gasta, mas também a composição dessas despesas, sua eficiência e seus efeitos duradouros sobre a produtividade e o crescimento.
Arrecadação deve crescer 5,9%, segundo a CNI
A receita líquida do governo federal deve avançar 5,9% em termos reais, conforme as projeções citadas pela reportagem. Entre os fatores apontados estão a redução de incentivos fiscais, a limitação ao aproveitamento de créditos tributários, as receitas relacionadas ao petróleo e outras receitas administradas.
O crescimento real da arrecadação indica que a receita deve aumentar acima da inflação. Ainda assim, a expansão das receitas não impede, por si só, a ocorrência de déficit primário, pois o resultado depende da diferença entre receitas e despesas consideradas no cálculo.
Para as empresas, a composição desse aumento merece atenção. Medidas que reduzem benefícios fiscais ou limitam créditos tributários podem elevar o custo efetivo de determinadas operações, dependendo do setor, do regime tributário e das regras aplicáveis a cada contribuinte.
A relação entre arrecadação e atividade econômica também importa. Uma receita pública maior pode resultar de crescimento econômico, mudanças na legislação, redução de benefícios ou maior incidência efetiva de tributos. Esses mecanismos não produzem necessariamente os mesmos efeitos sobre investimentos, preços, emprego e competitividade.
Por isso, o crescimento da arrecadação precisa ser analisado em conjunto com a evolução da atividade econômica e com o peso dos tributos sobre o setor produtivo.
Cumprimento da meta fiscal não elimina o déficit projetado
A projeção de déficit primário de R$ 54,6 bilhões contrasta com o superávit de R$ 12,6 bilhões estimado para o cumprimento da meta fiscal após as exclusões mencionadas. A diferença entre os dois resultados é de R$ 67,2 bilhões, valor próximo dos R$ 67,3 bilhões em despesas que, segundo a reportagem, não serão computadas.
O resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas primárias, isto é, aquelas consideradas nesse indicador, sem incluir o pagamento de juros da dívida pública. Ele é um dos instrumentos utilizados para acompanhar a situação fiscal do governo.
Quando o resultado primário é negativo, as receitas consideradas no cálculo não cobrem as despesas primárias. Isso não significa que a dívida aumentará exatamente pelo valor do déficit, porque a variação do endividamento também depende dos juros, das operações financeiras, dos ajustes patrimoniais e de outros fatores.
A exclusão de determinadas despesas do cálculo da meta pode ser permitida pelas regras fiscais vigentes. Portanto, a existência de exceções não significa automaticamente descumprimento da legislação. A questão econômica é que o indicador usado para avaliar a meta e o conjunto mais amplo das contas públicas podem apresentar resultados diferentes.
Para compreender a situação fiscal, é necessário observar ambos: o cumprimento das regras estabelecidas e a trajetória efetiva das receitas, das despesas e do endividamento.
Dívida de 83,7% do PIB aumenta a importância dos juros
A projeção de dívida pública equivalente a 83,7% do PIB é um dos pontos centrais do cenário apresentado pela CNI. Esse indicador relaciona o estoque de dívida à dimensão da economia e permite acompanhar a capacidade relativa de sustentação do endividamento.
A trajetória da dívida depende de uma combinação de fatores: resultado primário, custo médio dos juros, crescimento nominal do PIB e ajustes que afetam o estoque de obrigações públicas. Em termos gerais, juros elevados tornam mais caro financiar a dívida, enquanto um crescimento econômico mais forte pode ajudar a reduzir a relação entre dívida e PIB, dependendo das demais condições.
Uma dívida elevada não implica, isoladamente, uma crise fiscal iminente. A avaliação também precisa considerar a estrutura dos vencimentos, a moeda de denominação, a capacidade de financiamento do Estado, a credibilidade das políticas econômicas e a trajetória esperada dos resultados fiscais.
Ainda assim, quando o endividamento cresce sem uma perspectiva convincente de estabilização, aumenta a importância da confiança dos investidores e da previsibilidade da política econômica. Alterações nas expectativas podem influenciar os juros exigidos para financiar o governo e, por diferentes canais, as condições de crédito enfrentadas por empresas e consumidores.
O que o cenário fiscal significa para as empresas
A combinação de despesas em expansão, aumento da arrecadação e dívida elevada afeta o ambiente em que as empresas tomam decisões. O efeito não é uniforme, mas três canais merecem atenção.
O primeiro é o custo de financiamento. Se o endividamento e as perspectivas fiscais contribuírem para manter elevados os juros exigidos pelo mercado, empresas poderão enfrentar custos maiores para financiar capital de giro, comprar equipamentos ou ampliar suas operações. A relação não é automática, pois as taxas também dependem da política monetária, da inflação, do risco de crédito e das condições internacionais.
O segundo é a previsibilidade tributária. Mudanças frequentes nas regras de incentivos e créditos podem alterar o planejamento financeiro, sobretudo em atividades que dependem de investimentos de longo prazo ou operam com margens reduzidas.
O terceiro é a demanda. A expansão dos gastos públicos pode sustentar o consumo e beneficiar determinados segmentos, enquanto juros elevados e maior incerteza podem limitar investimentos privados e compras financiadas. O resultado final depende da composição dos gastos, da reação do setor privado e das condições macroeconômicas.
Para pequenos e médios empresários, a consequência prática é a necessidade de acompanhar não apenas os anúncios de arrecadação ou o cumprimento da meta fiscal, mas também os juros, o crédito, os custos tributários e a evolução da demanda em seus mercados.
Ajuste fiscal exige mais do que cumprir uma meta
As projeções divulgadas pela CNI colocam em evidência uma questão estrutural: o cumprimento formal de uma meta fiscal é relevante, mas não substitui a análise da trajetória da dívida e da sustentabilidade das contas públicas.
A política fiscal pode contribuir para sustentar a atividade econômica no curto prazo. Ao mesmo tempo, despesas que crescem persistentemente acima da capacidade de financiamento do Estado podem dificultar a estabilização do endividamento, caso não sejam compensadas por receitas sustentáveis, crescimento econômico ou ajustes na composição dos gastos.
Também é necessário avaliar a qualidade da arrecadação. A elevação de receitas por meio de mudanças tributárias pode melhorar o resultado fiscal, mas seus efeitos sobre o investimento, a produtividade e a competitividade dependem de como as medidas são desenhadas e distribuídas entre os contribuintes.
O debate econômico, portanto, não deve se limitar a verificar se o governo alcançará o número previsto para a meta. É necessário perguntar se a trajetória das contas públicas permite estabilizar a dívida, reduzir incertezas e preservar condições adequadas para o investimento privado.
Para o setor produtivo, o cenário reforça a importância de previsibilidade fiscal e tributária. Para o governo, o desafio é compatibilizar o financiamento das políticas públicas, o crescimento econômico e uma trajetória sustentável de endividamento.
Perguntas frequentes
O governo pode cumprir a meta fiscal mesmo com déficit primário?
Sim. Isso pode ocorrer quando as regras da meta permitem excluir determinadas despesas do cálculo. O resultado utilizado para verificar o cumprimento da meta pode, assim, ser diferente do resultado primário mais abrangente.
O que significa uma dívida pública de 83,7% do PIB?
Significa que o estoque de dívida considerado na projeção equivale a 83,7% do valor anual do Produto Interno Bruto. O indicador ajuda a avaliar o endividamento em relação ao tamanho da economia, mas não determina sozinho a existência de uma crise fiscal.
Por que o aumento dos gastos pode afetar a economia?
A expansão das despesas públicas pode estimular a demanda no curto prazo. Seus efeitos sobre a dívida, os juros e o crescimento de longo prazo dependem da composição dos gastos, das receitas e das condições econômicas.
Como o cenário fiscal pode afetar as empresas?
Pode influenciar o custo de crédito, as expectativas de juros, a previsibilidade tributária e a demanda por bens e serviços. A intensidade desses efeitos varia conforme o setor e as condições de mercado.
A arrecadação maior significa que as contas públicas estão equilibradas?
Não. O resultado fiscal depende da diferença entre receitas e despesas. Mesmo com crescimento real da arrecadação, pode haver déficit se as despesas forem superiores às receitas consideradas no cálculo.
