Paraguai

Crise no Ueno Bank: Paraguai intervém em banco ligado a Peña e bloqueia recursos de milhões de clientes

Uncategorized

A intervenção no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do Paraguai, abriu uma crise bancária e política no país. Após identificar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação, o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou, em 3 de novembro, o início de um processo de resolução bancária, com suspensão dos serviços e bloqueio temporário das operações.

A medida deixou aproximadamente 2,9 milhões de clientes sem acesso às contas, cartões e serviços digitais. O número representa quase metade da população paraguaia e cerca de 60% dos adultos do país, segundo informações divulgadas pela instituição.

O episódio também colocou sob pressão o governo do presidente Santiago Peña. O Ueno Bank mantém ligações empresariais anteriores com o mandatário, enquanto o então presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, havia dirigido a instituição financeira antes de assumir o comando da autoridade monetária. Em meio à repercussão, Peña pediu a renúncia de Carvallo, que deixou o cargo no mesmo dia.

Falta de capital levou à intervenção do Banco Central

A decisão do Banco Central foi aprovada por unanimidade em 2 de novembro e anunciada na madrugada do dia seguinte. Segundo o comunicado oficial, a insuficiência de capital foi identificada após ajustes nos demonstrativos financeiros da instituição durante um processo de regularização.

O índice de solvência caiu para menos de 50% do mínimo regulamentar, situação que levou o órgão regulador a iniciar o procedimento previsto na legislação paraguaia para resolução de instituições financeiras.

Na prática, o procedimento prevê a verificação da situação patrimonial do banco, a preservação dos ativos e a identificação dos recursos disponíveis para cumprir as obrigações com clientes e credores.

A instituição teve seus serviços suspensos, incluindo aplicativos, cartões e operações em caixas eletrônicos. Agências também foram fechadas, provocando filas e manifestações de clientes que buscavam informações sobre suas economias. Banco Central do Paraguai

Mais de R$ 4 bilhões em recursos públicos estão envolvidos

Um dos aspectos mais delicados da crise é a exposição de recursos públicos mantidos no Ueno Bank, a instituição administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, valor equivalente a cerca de R$ 4,7 bilhões, considerando a conversão aproximada de US$ 1 para R$ 5,50.

Entre os principais valores envolvidos estão os investimentos do Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS), responsável pelo sistema previdenciário estatal. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, o IPS mantém aproximadamente US$ 355 milhões aplicados no banco.

Além dos investimentos previdenciários, a instituição também participa da movimentação de recursos utilizados no pagamento de benefícios públicos, incluindo aposentadorias.

A situação aumenta a dimensão do problema: a crise não envolve apenas correntistas individuais, mas também instituições públicas e recursos destinados à proteção social. Reuters+1

Clientes poderão recuperar o dinheiro? Entenda o limite da garantia

O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai prevê cobertura de até 75 salários mínimos por pessoa ou empresa em cada instituição financeira. No caso do Ueno Bank, o limite corresponde a 228,3 milhões de guaranis, aproximadamente US$ 38,6 mil ou R$ 211 mil.

Isso significa que os clientes com depósitos dentro desse limite estão protegidos pelo mecanismo legal de garantia. Entretanto, quem possui valores superiores poderá enfrentar um processo mais complexo para recuperar a parcela excedente, dependendo da disponibilidade de ativos e dos procedimentos de liquidação.

O Banco Central informou que pretende identificar os ativos e passivos da instituição e estabelecer mecanismos para devolver os recursos aos depositantes.

A legislação prevê mecanismos de proteção também para os valores que ultrapassam o limite garantido, mas não significa que todo o dinheiro excedente esteja automaticamente assegurado.

A crise também exige atenção dos aposentados que recebem benefícios por meio da instituição, assim como dos órgãos públicos que mantêm investimentos no banco. Banco Central do Paraguai

Ligações com o presidente Santiago Peña ampliam a crise política

A intervenção ganhou dimensão política porque o Ueno Bank possui vínculos empresariais anteriores com o presidente Santiago Peña.

O banco é controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, e Peña manteve uma relação de parceria empresarial com o grupo até março de 2025, segundo informações da Reuters.

Outro ponto que chamou a atenção foi a trajetória de Carlos Carvallo, que presidiu o Ueno antes de assumir o comando do Banco Central, em 2023.

Com o agravamento da crise, o Ministério Público paraguaio solicitou investigação criminal sobre os acontecimentos envolvendo a instituição e determinou medidas contra dirigentes ligados ao banco. A Reuters informou que foram ordenadas prisões de oito pessoas.

Peña anunciou que havia solicitado a renúncia de Carvallo e defendeu a aprovação de medidas legislativas para acelerar os pagamentos aos depositantes e garantir a devolução dos recursos públicos e previdenciários.

Carvallo afirmou que sua saída permitiria ao Banco Central conduzir o processo sem que as controvérsias políticas interferissem na atuação dos órgãos reguladores. Reuters+2

Crise também coloca em discussão a fiscalização bancária

A situação do Ueno Bank levanta questões sobre os mecanismos de supervisão do sistema financeiro paraguaio, especialmente diante do crescimento acelerado da instituição e de sua participação na administração de recursos públicos.

Segundo a Reuters, o banco vinha enfrentando questionamentos relacionados a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao grupo controlador. As suspeitas e preocupações com operações de crédito passaram a pesar sobre a percepção dos investidores em relação à instituição.

A crise também provocou repercussões no mercado financeiro e levantou preocupações sobre a imagem do Paraguai como destino de investimentos estrangeiros.

Em 4 de novembro, o presidente Santiago Peña anunciou a indicação do economista Raúl Vera Bogado para assumir o comando do Banco Central, além da substituição de outros dois integrantes da diretoria.

O que o caso representa para o sistema financeiro?

A intervenção no Ueno Bank demonstra como problemas de solvência em uma instituição de grande alcance podem ultrapassar os limites do mercado bancário e atingir diretamente a economia real.

Quando milhões de pessoas ficam temporariamente sem acesso ao próprio dinheiro, os efeitos podem alcançar o consumo, o pagamento de contas, a atividade comercial e a confiança dos consumidores nas instituições financeiras.

No caso paraguaio, a exposição de recursos previdenciários e públicos acrescenta outra dimensão: a necessidade de proteger não apenas os depósitos privados, mas também o patrimônio destinado ao financiamento de políticas públicas e benefícios sociais.

O Banco Central afirma que se trata de uma situação específica, e não de uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio. Ainda assim, a dimensão da instituição e suas conexões empresariais e políticas tornam o episódio relevante para investidores, correntistas e autoridades econômicas de toda a região.

Para o Brasil, que mantém relações comerciais e financeiras com o Paraguai, o caso também merece acompanhamento, especialmente diante da presença de investidores brasileiros no mercado paraguaio.

Perguntas frequentes

1. Por que o Ueno Bank foi intervindo?

Porque seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação paraguaia.

2. Quantos clientes foram afetados?

Aproximadamente 2,9 milhões de pessoas, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.

3. Todo o dinheiro dos clientes está garantido?

Não. O Fundo de Garantia de Depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição. Valores excedentes dependem dos procedimentos de recuperação e liquidação.

4. Quanto dinheiro público está envolvido?

Aproximadamente US$ 850 milhões, incluindo investimentos de instituições públicas e previdenciárias.

5. Por que o presidente do Banco Central renunciou?

O presidente Santiago Peña solicitou sua saída em meio à crise e aos questionamentos sobre a fiscalização do banco. Carvallo também havia dirigido o Ueno antes de assumir o Banco Central.

6. A crise representa risco para outros bancos paraguaios?

O Banco Central declarou que considera o caso específico da instituição e não uma situação generalizada do sistema financeiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *