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A psicologia por trás da vontade de empreender

NEGÓCIOS

Bater o cartão todos os dias, cumprir o horário, executar as tarefas e esperar o fim do expediente pode parecer apenas uma rotina profissional. Mas, para algumas pessoas, essa repetição começa a produzir uma sensação mais profunda: a de que estão trabalhando, mas não estão construindo nada que realmente consideram seu. É nesse espaço entre cumprir uma obrigação e perseguir um objetivo próprio que pode nascer a vontade de empreender.

Não se trata de afirmar que a CLT é ruim ou que todo trabalhador deveria abandonar o emprego. A questão é psicológica: o que acontece quando a pessoa passa a não enxergar mais significado naquilo que faz?

Quando o cérebro percebe uma contradição

Um dos conceitos que ajuda a entender esse processo é a dissonância cognitiva.

Ela ocorre quando existe um conflito entre aquilo que uma pessoa acredita e aquilo que ela faz.

Imagine alguém que se considera ambicioso, criativo e capaz de construir algo próprio, mas passa anos em uma rotina na qual apenas cumpre ordens, espera o salário e evita assumir riscos.

Em algum momento, pode surgir uma pergunta incômoda:

“Se eu sou capaz de fazer mais, por que estou fazendo apenas o necessário?”

O desconforto nasce justamente dessa contradição.

Segundo o material utilizado como referência, diante de uma incongruência o cérebro tende a tentar reduzi-la. A pessoa pode mudar seu comportamento ou modificar a maneira como interpreta a própria situação.

É nesse momento que algumas pessoas começam a procurar alternativas.

Fazer o mínimo também pode virar um hábito

Existe outro elemento importante: o comportamento automático.

Quando uma rotina se repete durante muito tempo, determinadas ações deixam de exigir reflexão. A pessoa chega, trabalha, cumpre suas tarefas, olha o relógio e vai embora.

O problema não está necessariamente em fazer o trabalho corretamente.

O problema aparece quando o mínimo necessário passa a ser também o máximo de energia que a pessoa está disposta a investir naquele ambiente.

O material destaca que aumentar a consciência sobre os próprios hábitos pode modificar comportamentos. Quando a pessoa começa a prestar atenção no que faz automaticamente, ela passa a perceber padrões que antes simplesmente aconteciam.

No mundo profissional, essa percepção pode ser desconfortável.

Ela faz surgir perguntas como:

“Estou cansado do trabalho ou estou cansado da minha própria rotina?”

O ambiente também ensina como devemos agir

Outro conceito importante é a influência do ambiente.

As pessoas não trabalham isoladamente. Chefes, colegas, metas, horários, regras e expectativas sociais formam um ambiente que influencia comportamentos.

No emprego, existe uma estrutura externa que ajuda a manter a pessoa comprometida: alguém espera que ela esteja presente, entregue determinada tarefa e cumpra determinado horário.

Quando a pessoa decide começar um projeto próprio, essa estrutura desaparece.

O material diferencia justamente essas duas situações: no trabalho existem chefe, colegas e expectativas externas; em um projeto pessoal, inicialmente, existe apenas o próprio indivíduo.

Isso ajuda a explicar uma situação curiosa:

há pessoas que conseguem trabalhar oito horas para outra pessoa, mas não conseguem dedicar uma hora ao próprio projeto.

Não necessariamente porque sejam preguiçosas.

O ambiente simplesmente oferece uma estrutura de cobrança muito mais forte.

O efeito Galateia: aquilo que você espera de si mesmo

A psicologia também oferece uma perspectiva interessante por meio do efeito Galateia.

O conceito apresentado no material está relacionado à maneira como a expectativa que uma pessoa possui sobre seu próprio comportamento pode influenciar suas ações.

Isso ajuda a entender dois pensamentos muito diferentes.

“Eu não tenho perfil para empreender.”

ou:

“Ainda não sei empreender. O que preciso aprender?”

A primeira afirmação fecha possibilidades.

A segunda abre um caminho.

E existe uma diferença importante entre acreditar cegamente que será bem-sucedido e acreditar que existe um caminho possível para chegar lá.

O próprio conteúdo ressalta essa diferença: expectativa não é simplesmente ilusão. Ela ganha força quando a pessoa consegue enxergar uma possibilidade concreta de ação.

A profecia autorrealizável pode trabalhar contra você

A mesma lógica aparece na chamada profecia autorrealizável.

Se uma pessoa acredita que nunca conseguirá empreender, provavelmente terá menos disposição para estudar vendas, testar produtos, conversar com clientes ou aprender gestão.

O resultado pode acabar confirmando aquilo que ela já acreditava.

Não porque exista alguma força misteriosa determinando seu destino, mas porque a expectativa influencia o comportamento.

O material apresenta justamente essa relação entre expectativa e ação: quando alguém acredita que consegue realizar determinada tarefa, tende a se comportar de maneira mais compatível com essa expectativa.

Por isso, mudar a pergunta pode ser mais importante do que simplesmente tentar aumentar a motivação.

“Eu não consigo” é diferente de “eu ainda não sei”

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a estratégia.

“Eu não consigo vender” é uma conclusão.

“Eu ainda não sei vender” é um problema que pode ser estudado.

“Eu não consigo administrar uma empresa” é uma identidade.

“Eu preciso aprender gestão” é uma tarefa.

O empreendedorismo exige justamente essa transformação: tirar o problema do campo da identidade e colocá-lo no campo do aprendizado.

O efeito Rosenthal e as expectativas dos outros

O material também aborda o efeito Rosenthal, relacionado à influência das expectativas que outras pessoas possuem sobre determinado indivíduo.

A ideia apresentada é que a expectativa de alguém pode modificar a maneira como outra pessoa se comporta. No exemplo discutido, estudantes tratados como mais capazes receberam estímulos que acabaram influenciando sua postura diante das tarefas.

No ambiente profissional, isso levanta outra questão.

Se durante anos uma pessoa escuta que ela é apenas “funcionária”, que não tem perfil de liderança ou que “empreender não é para ela”, essas expectativas podem acabar influenciando a maneira como ela própria se enxerga.

Da mesma forma, encontrar pessoas que enxergam capacidade, iniciativa e possibilidade de crescimento pode alterar o ambiente psicológico no qual essa pessoa toma decisões.

Por que algumas pessoas querem ser donas do próprio tempo?

Talvez a vontade de empreender não venha inicialmente do desejo de ficar rico.

Pode começar com algo mais simples:

autonomia.

Escolher o que fazer.

Decidir onde colocar energia.

Criar uma ideia própria.

Ter participação direta no resultado.

Sentir que o esforço realizado hoje está construindo alguma coisa para amanhã.

Essa busca por autonomia pode ser particularmente forte em pessoas que passaram a sentir uma distância crescente entre aquilo que fazem profissionalmente e aquilo que gostariam de construir.

Mas empreender não elimina a pressão

Existe uma romantização perigosa do empreendedorismo.

Trocar o emprego por um negócio próprio não significa trocar pressão por liberdade.

O empreendedor pode deixar de ter chefe, mas passa a ter clientes.

Deixa de bater cartão, mas pode trabalhar mais horas.

Deixa de responder a uma empresa, mas passa a responder ao caixa, aos fornecedores, aos impostos, às vendas e ao mercado.

A diferença está na natureza da responsabilidade.

No emprego, grande parte da estrutura já existe.

No negócio próprio, o empreendedor precisa construir a estrutura.

Talvez você não esteja procurando outro emprego

Em alguns casos, a insatisfação profissional pode esconder uma necessidade diferente.

A pessoa não quer necessariamente outro emprego.

Ela quer outro tipo de relação com o próprio trabalho.

Quer participar das decisões.

Quer construir.

Quer experimentar.

Quer assumir riscos calculados.

Quer perceber que seu esforço está produzindo algo que continuará existindo depois daquele expediente.

É nesse ponto que o empreendedorismo deixa de ser apenas uma alternativa de renda e passa a representar uma possibilidade de identidade profissional.

Antes de sair, construa

Sentir-se desconectado do emprego não significa que a decisão correta seja pedir demissão amanhã.

Uma transição mais racional pode começar enquanto o salário ainda existe.

Estudar um mercado.

Aprender vendas.

Testar uma pequena oferta.

Criar um produto.

Fazer a primeira venda.

Entender custos.

Montar uma reserva financeira.

Observar se existe demanda real.

A diferença entre uma decisão impulsiva e uma decisão empreendedora está justamente nisso: não basta querer sair; é preciso saber para onde ir.

Visão Empresarial

Talvez a pergunta mais importante não seja “eu quero largar a CLT?”

Talvez seja:

“O que está faltando na minha relação com o trabalho?”

Pode ser dinheiro. Pode ser reconhecimento. Pode ser autonomia. Pode ser aprendizado. Pode ser propósito. Ou simplesmente a sensação de que a rotina deixou de produzir crescimento.

O empreendedorismo não é uma solução universal e não deve ser tratado como superior ao emprego formal.

Mas, para quem começa a perceber uma desconexão persistente, essa inquietação pode servir como um sinal para olhar com mais atenção para os próprios hábitos, expectativas e objetivos.

Porque existe uma diferença enorme entre trabalhar apenas para terminar o dia e trabalhar sabendo o que você está tentando construir.

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