Conhecido por livros sobre comportamento e desenvolvimento humano, Cury estreia na política eleitoral defendendo educação, saúde mental e uma alternativa à polarização
Augusto Jorge Cury, de 67 anos, chegou à disputa pela Presidência da República em 2026 por um caminho bastante diferente daquele percorrido pela maioria dos candidatos. Natural de Colina, no interior de São Paulo, ele construiu sua trajetória profissional como médico psiquiatra, pesquisador, professor e escritor antes de ingressar oficialmente na política eleitoral. Pelo Avante, Cury disputa pela primeira vez um cargo público.

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e com pós-graduação pela PUC de São Paulo, Cury ganhou notoriedade nacional principalmente por seus livros e palestras relacionados ao comportamento humano, inteligência emocional e desenvolvimento pessoal. A carreira literária fez com que seu nome alcançasse um público muito maior do que aquele normalmente associado a um candidato estreante.
Sua entrada na política representa, portanto, uma mudança significativa de ambiente. Em vez de décadas ocupando cargos eletivos ou participando diretamente da estrutura partidária, Cury chega à eleição presidencial trazendo para o debate público uma identidade construída fora da política tradicional. Essa característica é, ao mesmo tempo, uma de suas principais forças e um dos pontos que precisam ser observados pelo eleitor.
Índice
Uma candidatura construída fora da política tradicional
O Avante oficializou Cury como candidato à Presidência em agosto de 2026. Durante a convenção nacional do partido, o candidato apresentou também uma proposta de mudança no sistema político brasileiro, defendendo a adoção do semipresidencialismo, modelo no qual o presidente manteria funções estratégicas enquanto um primeiro-ministro ficaria responsável pela condução cotidiana do governo.
A candidatura procura explorar justamente a imagem de alguém que não construiu sua carreira dentro da política profissional. Cury tenta apresentar-se como uma alternativa ao confronto permanente entre grupos ideológicos e afirma defender uma atuação capaz de estabelecer pontes entre diferentes setores da sociedade.
Essa tentativa de ocupar um espaço distante da tradicional divisão entre direita e esquerda ganhou destaque no primeiro debate presidencial de 2026. Realizado pela Band em 23 de agosto, o encontro contou apenas com Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos, depois das ausências de Lula, Flávio Bolsonaro e da desistência de Romeu Zema.
Saúde mental e educação como bandeiras
A experiência profissional de Cury também influencia diretamente o discurso de sua candidatura. Entre suas principais bandeiras estão questões relacionadas à educação, saúde mental e desenvolvimento socioemocional.
A Agência Brasil destaca que o candidato defende propostas educacionais voltadas também à inclusão de pessoas neurodivergentes, abrangendo condições como autismo, TDAH e dislexia.
Há, nesse ponto, uma característica interessante de sua candidatura: Cury tenta transformar aquilo que construiu durante décadas como profissional em uma proposta política. O escritor que discutia emoções, relações humanas e funcionamento da mente passa a apresentar essas experiências como elementos para pensar políticas públicas.
Mas existe uma diferença importante entre conhecer profundamente determinado campo e administrar um Estado. A experiência como médico, pesquisador ou escritor não substitui automaticamente conhecimentos sobre economia, segurança pública, infraestrutura, relações internacionais, orçamento e funcionamento das instituições. Para o eleitor, essa é uma das questões que merecem ser avaliadas durante a campanha.
O primeiro debate expôs uma disputa diferente
No primeiro debate presidencial de 2026, Cury acabou ocupando uma posição distinta da adotada por Renan Santos. Enquanto o candidato do Missão utilizou um discurso mais agressivo contra os adversários ausentes, Cury criticou a ausência dos principais candidatos e também se mostrou contrário ao excesso de ataques pessoais.
O episódio ajudou a revelar uma das características centrais da estratégia política de Cury: tentar transformar a rejeição à polarização em uma identidade eleitoral própria.
A questão, entretanto, é saber até onde essa estratégia pode avançar. Em uma eleição marcada por fortes disputas ideológicas e por candidatos com bases eleitorais consolidadas, apresentar-se como alguém capaz de construir pontes pode atrair eleitores cansados do conflito. Ao mesmo tempo, pode gerar uma pergunta inevitável: como transformar um discurso de conciliação em decisões concretas quando interesses políticos e econômicos entram em choque?
De autor conhecido a candidato desconhecido para muitos eleitores
A notoriedade de Augusto Cury como escritor é indiscutível, mas reconhecimento público não significa necessariamente força eleitoral. A passagem do mercado editorial para a política exige uma mudança completa de relacionamento com o público.
Um leitor escolhe comprar um livro. Um eleitor precisa decidir quem receberá poder para administrar orçamento público, nomear ministros, conduzir políticas econômicas, representar o país internacionalmente e tomar decisões que afetam milhões de pessoas.
Essa diferença talvez seja um dos principais desafios de Cury. Sua candidatura parte de uma marca pessoal construída durante décadas, mas precisará demonstrar que essa marca pode ser convertida em capacidade política e administrativa.
A força e a fragilidade de ser um outsider
A candidatura de Cury também representa um fenômeno que aparece repetidamente na política contemporânea: a busca por candidatos que chegam de fora da estrutura tradicional.
O outsider possui uma vantagem evidente. Ele pode se apresentar como alguém que não carrega décadas de alianças, disputas e desgastes políticos. Por outro lado, justamente por não possuir uma trajetória consolidada em cargos públicos, precisa convencer o eleitor de que consegue montar uma equipe competente e transformar ideias em políticas públicas.
No caso de Cury, a defesa de uma administração baseada em equipes técnicas pode ser uma tentativa de responder exatamente a esse desafio.
A proposta coloca uma questão importante no centro da candidatura: um presidente precisa necessariamente dominar pessoalmente todas as áreas de governo ou sua principal função deveria ser escolher boas equipes, estabelecer prioridades e coordenar o Estado?
A candidatura que tenta mudar o tom da política
A trajetória de Augusto Cury torna sua candidatura particularmente diferente na eleição de 2026. Ele não chega ao processo eleitoral carregando uma longa carreira parlamentar ou executiva, mas uma trajetória construída em torno da medicina, da pesquisa, da educação e da literatura.
Isso pode ser uma vantagem em um cenário no qual parte do eleitorado demonstra cansaço com a polarização. Mas também coloca sobre o candidato uma cobrança maior: provar que sua experiência fora da política é capaz de produzir resultados dentro dela.
No fim, a questão talvez não seja simplesmente saber se Augusto Cury é de direita, esquerda ou centro. A questão mais relevante será descobrir se a experiência acumulada como médico, pesquisador e escritor consegue ser transformada em um projeto de governo capaz de enfrentar os problemas concretos do Brasil.
E essa é justamente a diferença entre uma boa ideia e uma boa administração pública: a primeira pode ser apresentada em um discurso; a segunda precisa funcionar quando encontra a realidade.
Principais propostas de Augusto Cury
1. Semipresidencialismo
É uma das propostas mais importantes da candidatura. Cury defende mudar o sistema de governo para o semipresidencialismo, no qual o presidente dividiria a condução do governo com um primeiro-ministro escolhido a partir da maioria parlamentar. A justificativa é aumentar a estabilidade política e reduzir crises institucionais.
2. Reforma do STF
Cury propõe reduzir o número de ministros do Supremo de 11 para 9, estabelecer mandato de oito anos e criar critérios diferentes para a composição da Corte. O plano também prevê idade mínima de 50 anos e restrições à indicação de pessoas recentemente filiadas a partidos políticos.
3. Educação em tempo integral
A educação é um dos pilares da candidatura. O plano prevê expansão do ensino integral e mudanças curriculares, incluindo gestão das emoções, educação financeira e empreendedorismo. Também há propostas para ampliar o ensino técnico e melhorar a transição dos jovens para o mercado de trabalho.
4. Brasil Neuroinclusivo
Cury propõe políticas específicas para pessoas neurodivergentes, incluindo pessoas com autismo, TDAH, dislexia, transtornos de aprendizagem e altas habilidades. A proposta busca ampliar diagnóstico, acolhimento e inclusão educacional e social.
5. Saúde mental
A saúde mental aparece como um eixo transversal de seu programa, relacionada à prevenção, educação, juventude e qualidade de vida. A candidatura procura levar para as políticas públicas conceitos associados à experiência de Cury como psiquiatra e pesquisador.
6. Modernização do SUS e telemedicina
O programa prevê digitalização dos prontuários, integração dos sistemas de saúde, fortalecimento da atenção primária e utilização de telemedicina para ampliar o acesso a especialistas, especialmente em regiões mais distantes.
7. Segurança pública integrada
Cury propõe recriar um Ministério da Segurança Pública, aumentando a integração entre Polícia Federal, polícias estaduais, guardas municipais, Ministério Público e órgãos de inteligência. O plano também aposta fortemente em tecnologia e compartilhamento de informações.
8. Equilíbrio das contas públicas
Na economia, o plano defende déficit público próximo de zero, controle dos gastos, redução gradual da dívida e avaliação do desempenho dos ministérios. Também propõe uma reforma administrativa e medidas para eliminar gastos considerados improdutivos.
9. Simplificação tributária
Cury propõe simplificar o sistema tributário, com unificação de tributos e mudanças na distribuição das receitas entre União, estados e municípios, defendendo uma redução da carga tributária ao final da transição.
10. Empreendedorismo e industrialização
Esse é um ponto que merece atenção. Cury defende transformar o Brasil em uma das maiores nações empreendedoras do mundo e chegou a propor 10 mil escolas de empreendedorismo. O plano também fala em industrialização, semicondutores, terras raras, agroindústria, exportações e desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais.
11. Governo digital e combate a desperdícios
O programa pretende ampliar a digitalização do Estado e utilizar inteligência artificial para identificar fraudes, desperdícios e desvios de recursos públicos, além de criar mecanismos de acompanhamento dos resultados das políticas públicas.
12. Mulheres e combate à violência
Entre os projetos estruturais está o “Mulheres Vivas”, voltado à proteção das mulheres. O tema também apareceu nas discussões do primeiro debate presidencial.
FAQ
Quem é Augusto Cury?
Augusto Cury é médico psiquiatra, escritor, pesquisador e autor de obras relacionadas ao comportamento humano, inteligência emocional e desenvolvimento pessoal.
Qual partido lançou Augusto Cury à Presidência?
Augusto Cury foi oficializado pelo Avante como candidato à Presidência da República nas eleições de 2026.
Augusto Cury já havia ocupado algum cargo político?
Não. A candidatura de 2026 representa sua estreia em uma disputa eleitoral por cargo público.
Quais são as principais bandeiras de Augusto Cury?
Entre os principais temas apresentados por Cury estão saúde mental, educação, desenvolvimento socioemocional e uma administração baseada em equipes técnicas.
Augusto Cury se posiciona entre direita e esquerda?
Cury procura se apresentar como uma alternativa à polarização tradicional entre direita e esquerda, defendendo a construção de pontes entre diferentes grupos políticos.
Qual é o principal desafio eleitoral de Augusto Cury?
Um dos principais desafios é transformar sua trajetória como médico, escritor e pesquisador em uma proposta de governo capaz de responder aos problemas concretos da administração pública.
